Christchurch, Nova Zelândia

À saída de Kaikoura, entrei numa estrada fenomenal, com curva e contra curva sempre à beira mar, muitas vezes acompanhando a linha de comboio. O facto de estar a chuviscar, contribuiu para criar um efeito sinistro, mas estava a adorar a condução.

Não estava muito entusiasmado com a ida a Christchurch. Ainda por cima, sabia que a cidade estava a recuperar de dois anos penosos de tremores de terra com consequências claras, como o êxodo de uma parte significativa da população e hoteis e negócios fechados… E não estava na Nova Zelândia propriamente pelas cidades, pelo que duas noites parecia-me excessivo. Reservei apenas uma, num hotel fantástico no centro da cidade, porque apanhei um preço promocional no site Wotif. Não consigo mesmo resistir a estas coisas… é de facto nas estadias onde gasto mais dinheiro…

Estava entrar na cidade e notei de imediato o efeito dos tremores de terra: as estradas remendadas! Notava-se a diferença de tonalidade do alcatrão, percebendo onde a estrada foi quebrada pelo abanar da terra. Quanto mais me aproximava do centro, mais visíveis se tornavam os efeitos: grandes áreas cercadas, prédios que vieram abaixo e circulação cortada em diversos pontos da cidade. Máquinas e homens a trabalhar nas ruas e edifícios. Quando cheguei mesmo ao centro, onde ia pernoitar, fiquei parvo! O número de edifícios que foram demolidos, ou foram parcialmente destruidos, era algo que nunca tinha visto! Quase parecia um cenário de guerra…

Saí do carro e com alguma sorte à mistura, encontrei o meu hotel. Ficava mesmo ao lado da catedral da cidade, que tinha sido parcialmente destruída… O hotel estava com óptimo aspecto.

Após o check-in, decidi devolver o carro à Thrifty no aeroporto. Dexei as minhas coisas no quarto e iria regressar ao hotel de autocarro. Pelo caminho, parei num supermercado e comprei os ingredientes para fazer o jantar, já que o meu quarto tinha cozinha totalmente equipada. Estava com saudades de uma refeição caseira…

O autocarro de regresso deixou-me na estação central, pelo que ainda tinha que andar um pouco até chegar ao hotel. Foi aqui que o meu sentimento por Christchurch começou a mudar…

Ao passear pelas ruas da cidade, senti uma vontade enorme por parte dos habitantes em reerguer as infra-estruturas, senti que as pessoas estavam a lutar fortemente por um recomeço. Queriam dar novo vibe à cidade e não vi caras tristes. Vi caras determinadas, pessoas que decidiram ficar… estava de certo modo dividido entre o sentimento de loucura e de fidelidade, ou mesmo de amor… Quem decidiu ficar, só o pode ter feito porque sente que é ali a sua casa. É ali que se sente bem, mesmo estando sujeitos à fúria da natureza, que pode voltar a acontecer a qualquer momento… é preciso ser louco, ou muito corajoso… Mas, senti forte empatia com os habitantes de Christchurch…

Por mais lógico que seja para mim saír da Madeira, até por razões profissionais, nunca o consegui fazer sem saber que pouco depois voltaria. Há algo naquela ilha que me prende. Foi ali que nasci, foi ali que me tornei homem (sempre com a criança bem presente…). Foi ali que encontrei os melhores amigos do mundo. Foi ali que os meus pais e avós nasceram. Foi ali que nasceram as minhas afilhadas… sim, agora tenho duas, a Eva Margarida e a Maria Marta… É na Madeira que tenho a minha casa. Por mais que deteste aterrar naquele aeroporto, é ali a minha casa… por isso compreendo de certa forma que os habitantes de Christchurch não queiram desligar-se de gerações inteiras de famílias que ali fizeram vida. Os donos do hotel em que fiquei em Paihia na ilha norte eram de Christchurch e decidiram sair após os terramotos. Não os censuro. Mas admiro os que ficaram e estão a tentar reconstruir a cidade.

Visitei uma rua muito curiosa, onde há lojas, bancos e bares em… Contentores! É o ponto que simboliza a reconstrução da cidade. Aqui está exposta alguma informação sobre a reconstrução e passados dois anos, ainda têm bairros para demolir e têm de substituir grande parte dos vários sistemas de canalização, desde as águas pluviais aos esgotos.

Passei pela praça da catedral, que noutros tempos, era o ponto fulcral da cidade. Isto está bem patente em cartazes expostos na praça. Estava a ler um cartaz quando fui interrompido por um grupo de homens cinquentões. Deviam estar a fazer um jogo qualquer porque um deles precisava de tirar uma foto com um polícia e não havendo um nas redondezas, achou que eu tinha aspecto suficientemente sério (!?) para desempenhar o papel. Outro escreveu “Policeman” num papel, que tive de segurar para a foto… após a qual agradeceram e ofereceram-me chocolate.

Um eléctrico antigo faz um mini percurso turístico, que se faz bem a pé em dez minutos, mas que decidi fazer no dia seguinte. Queria de alguma forma contribuir, queria dizer que não tinha medo de lá estar e que podiam contar comigo. Decidi ficar mais uma noite no mesmo hotel…

Regressei ao meu hotel, digamos, luxuoso, mas não cinco estrelas… Fiz uma sessão de ginásio, piscina, jacuzi e regressei ao quarto para fazer o jantar.

No dia seguinte, paguei os NZD10 para a viagem de eléctrico e estive um pouco na conversa com o condutor, que me foi contando pormenores sobre a cidade. Este senhor era professor, mas com o abandono de uma percentagem elevada da população, algumas escolas fecharam. Agora conduz o eléctrico. Olhando para ele, diria que conduz aquele eléctrico desde sempre… A viagem termina em frente ao museu de Canterbury, que decidi visitar e que é gratuito.

Às vezes, somos surpreendidos. Outras vezes somos surpreendido ao ponto de não percebermos como é possível tal coisa acontecer… Estava a percorrer a ala dedicada à Antártida, lendo os mostruários mais ou menos ao acaso.

Então não é que o primeiro homem a chegar ao Polo Sul, o norueguês Roald Amundsen, ia inicialmente para o Polo Norte e mudou de ideias depois de saber que alguém chegou lá primeiro. Até aqui, nada de especial. O que me espantou, foi saber que foi da Madeira que ele partiu para a viagem ao Polo Sul…

Depois, reparei num mapa muito interessante da Antartida que a coloca no centro, e à sua volta, três zonas do globo: America do Sul, nomeadamente Chile e Argentina, Africa do Sul e Australia/Nova Zelândia. Três zonas do globo percorridas pelo projecto World Wide Macató…

Apesar do meu bilhete me permitir o regresso de electrico, optei por regressar a pé, dando mais uma volta pela cidade. O sentimento de empatia só aumentava e atingia patamares estranhos…

Voltei para o hotel para nova sessão de fitness, havia que aproveitar. Acabava a minha visita a uma cidade que considerei especial e acabei feliz por ter lá ficado duas noites…

 

 

 

 

 

Bancos em contentores

 

 

 

A catedral…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Please like and share:

Leave a Reply