Mosteiro Rinchim Palri, Nepal

Dois dias e meio de preparação com a Volunteers Initiative Nepal (VIN) foi mais tempo do que estava à espera, considerando que a minha disponibilidade para o voluntariado era de apenas duas semanas.

A VIN mostrou ser uma organização fidedigna desde o momento zero, o que me deixou satisfeito com a escolha. Passei muitas horas a analisar voluntariados e escolhi a VIN pelas seguintes razões:

1 – consegui recolher alguma informação sobre a organização, que é mais difícil do que pode parecer. No entanto não li muitos testemunhos de voluntários anteriores;

2 – A VIN é uma organização nepalesa, pelo que bem ou mal, o meu dinheiro será gasto na comunidade;

3 – gostei dos projectos da VIN. Apesar de ter escolhido um projecto que não é da VIN, eles utilizam o dinheiro para apoiar os seus próprios projectos, nomeadamente apoio a mulheres e crianças, orfanatos e diversos projectos em várias comunidades;

A formação foi razoável, apesar de parte da informação ser desencessária para viajantes com alguma experiência. Fiquei com a ideia de que fariam o mesmo em metade do tempo, talvez porque estava ansioso por começar.

A partida para o mosteiro aconteceu numa viagem de taxi com a Cindy, voluntária francesa que vai ser coordenadora da VIN e uma senhora da VIN de que não sei o nome. Seguimos montanha acima num caminho de cabras num taxi tipo caixa de fósforos que mal conseguia subir na primeira velocidade. Muitos buracos na “estrada” maltrataram o carro, mas conseguimos chegar ao topo onde ficava situado o mosteiro.

Ninguém nos recebeu. Ficamos sentados na cantina, onde nos ofereceram um chá. Alguns minutos depois surgiu um monge. Depois de alguma conversa em nepalês com a senhora da VIN, pediram-me para me apresentar. Não sabia a quem me estava a dirigir, mas tentei não me preocupar muito com os pormenores.

Feitas as apresentações, o monge mostrou-me o quarto, que é bem melhor do que estava à espera. Até tenho uma casa de banho privada quando esperava partilhar.

Regressamos à cantina na hora do chá e fui apresentado ao Jesse, uma americano que ensina inglês no mosteiro há quatro semanas, junto com a sua namorada Cara, australiana. Vim substituí-los por um período curto, mas o mosteiro terá de encontrar mais voluntários para dar continuidade ao trabalho.

Despedi-me da Cindy e da senhora da VIN e fiquei “abandonado” no mosteiro. Numa breve troca de palavras com o monge, cujo inglês não era o melhor, fiquei com a ideia de que ele me ia fazer uma visita guiada pelo mosteiro às 16:30h. Entretanto, disse-me para descansar.

Nada aconteceu às 16:30h. Dei uma pequena volta pelo mosteiro, mas não mais voltei a ver o monge que me recebeu. Desconhecendo as regras, decidi não me aventurar muito e regressei ao quarto. Alguns monges conversavam na rua e um deles meteu conversa comigo. O Sixty tem 22 anos e teve a iniciativa de falar comigo um pouco. Quando tocaram o kharnag às 18:00h, convidou-me para assistir à sessão de debate que os monges fazem todos os dias.

Às 19h horas voltei à cantina para o jantar. O Jesse orientou-me, arranjando os utensílios que ficarão à minha responsabilidade até ao final: um copo, um prato, uma taça e uma colher. Comemos com os monges e eles são tão simpáticos que nos deixam passar à frente na fila da comida.

A comida é sempre muito igual, quase sempre o típico Dal Bhat: arroz simples, legumes e a deliciosa sopa de lentilhas.

Durante o jantar conheci a Cara, namorada do Jesse e a Jo, também australiana e orientadora do ensino de inglês no mosteiro. A Jo está no mosteiro há um ano e três meses… iniciamos as conversas para a sucessão. O plano definido foi muito simples: eu iria assistir os dois professores até final da semana tomando conta das suas aulas na semana seguinte. Estamos a falar de sete aulas por dia de quarenta e cinco minutos cada, mais uma sessão de trabalhos de casa com os mais novos.

Regressei ao quarto depois do jantar e como acontece diariamente, os monges mais pequenos sentam-se no pátio a rezar sob a forma de cânticos. Sentei-me perto e fiquei a assistir.

Acabei o primeiro dia um pouco desiludido porque esperava outro tipo de mosteiro. Nas minhas pesquisas, vi vários mosteiros com templos muito bonitos, mas este parecia mais uma escola que um mosteiro

No primeiro dia de aulas como assistente fui a 5 aulas antes do almoço, 2 após o almoço e uma sessão de trabalhos de casa depois do chá. Na sessão de apoio, tentei ajudar um pequenote a escrever em cima da linha e não por baixo, mas parece que é assim que escrevem no Nepal.

O Jesse e a Cara utilizam diversas técnicas de ensino, sendo a Cara mais estruturada, mais estilo professora. As suas aulas são mais fáceis de seguir e ajudar que as do Jesse, precisamente porque têm estrutura e os mais novos trabalham em simultâneo, permitindo-me ajudar. As do Jesse envolvem mais conversa, pelo que a minha intervenção foi quase nula. Por outro lado, as aulas da Cara são mais difíceis de reproduzir. Sem a estrutura por ela montada, é muito mais difícil controlar os miúdos. Entre outras técnicas, criaram um sistema monetário onde os miúdos ganham dinheiro por comparecer a horas, participar e fazer os trabalhos de casa. Dinheiro só no papel, claro. Com o “dinheiro” ganho podem comprar doces, lápis, autocolantes, etc. O sistema funciona bem com os miúdos.

No final do segundo dia, fiz uma caminhada com o Jesse e a Cara pela aldeia próxima para comprar mais chupa-chupas entre outras coisas. Pelo caminho cruzamo-nos com várias crianças fardadas que regressavam a casa após as aulas e a interacção foi constante até seguirmos caminhos diferentes.

Por iniciativa dele, só ao terceiro dia conheci o reitor do mosteiro. Convidou-me para uma conversa na sua casa, separada dos dormitórios, com uma vista esplêndida sobre Catmandu. Encontrei uma pessoa simples e acessível e conversámos sobre diversos assuntos, desde Portugal a casamentos, ao estilo de vida ocidental e o cada vez maior interesse pelo budismo. Quando ele descobriu que eu era informático, não hesitou em pedir-me ajuda no Facebook e no iPhone. De repente, o meu retiro espiritual passou a ter tecnologia, o que não estava nos planos, mas se estou no mosteiro para ajudar, é inevitável colocar o meu conhecimento ao serviço de quem dele necessita. Na parte da tarde, após resolver um problema com o acesso à internet, instalei-lhe uma aplicação de rádio e fui convidado para um chá e comer uns momos. Combinamos uma caminhada para sábado de manhã para continuarmos as nossas conversas.

No segundo dia no mosteiro, a minha desilusão inicial começou a desaparecer porque descobri que afinal, o mosteiro não só tem um templo como tem dois. Ficam no topo de uma escadaria e os monges só lá vão para o que chamam de Puja, uma cerimónia de reza. Isto acontece todos os dias às cinco e meia da manhã e por vezes às quatro e meia da tarde.

No dia três decidi acordar cedo para ir ver a puja. Às cinco e meia da manhã após tocarem o kharnag subi as escadas e entrei num templo que correspondeu a todo o meu imaginário! O interior é muito colorido, tal e qual como imaginava serem os templos tibetanos. Sentados na fila da frente, os monges entoaram cânticos e tocaram alguns instrumentos durante cerca de uma hora. Fiquei sentado na fila de trás e não era o único a assistir: o mosteiro hospedou um grupo de turistas russos que também acordaram cedo para assistir à cerimónia.

Às sete da manhã é servido o pequeno almoço, composto por legumes e roti (pão). Servem um chá de manteiga de que não fiquei fã. A apontar alguma dificuldade, tenho de admitir que a falta de cafeína pela manhã é o que me está a afectar mais, em particular com o volume de trabalho que tenho de enfrentar.

De entre todos os rapazes que estão no mosteiro, há um pequenote que recebe tratamento especial. Não consigo explicar, mas esta criança tem de facto algo que não é normal para os seus quatro anos de existência nesta vida… a história que ouvi é que este rapazito auto-proclamou-se como sendo a reencarnação de um lama… e todos o tratam de forma diferente. Como é que uma criança se auto-proclama de tulko (reencarnação) foi o que tentei descobrir e o que me contaram foi que, quando ainda era mais pequenino, falava sobre uma vida anterior… Um bom exemplo de como esta criança é tratada de forma diferente foi quando após definirem o sistema monetário numa aula, em que cada aluno ficou com quatro dolares, na aula seguinte, o Tenzin aparece com $4 verdadeiros… Durante o jantar senta-se sempre com os professores e conversa connosco. Não sabe distinguir Miss de Mr, pelo que me chamou de Miss Pápa, provocando uma gargalhada geral. Faz-me lembrar o rapaz que o Eddie Murphy tem de proteger no filme dos anos oitenta “O menino de ouro”. Ainda tem dificuldades motoras naturais da idade, pelo que ajudo-o a escrever palavras, esquecendo-me que ele tem apenas quatro anos…

Todos os dias há falhas de energia, mas o mosteiro tem um gerador que é ligado para o essencial, tipo à hora do jantar. Tenho de confessar que há wi-fi no mosteiro, mas por opção, para tornar a experiência mais próxima das minhas espectativas e também para me desligar um pouco daquilo que é a minha vida normal, opto por não o usar a não ser para comunicar com a VIN.

O final da primeira semana ficou inevitavelmente marcado pela despedida da Cara e do Jesse. Assumi a responsabilidade das aulas no último dia, com eles a assistir, mas optei por não fazer aulas normais. Achei que após mais de um mês com os monges, eles mereciam ter uma despedida descontraída e divertida, pelo que a ideia passava por fazer apenas jogos. Não foi tão fácil como previ…

Retirar a estrutura da aula criada pela Cara acabou por provocar um pouco de caos, principalmente na segunda aula. Do descontraído, passei a ter monges a correr na sala aos gritos, aos pontapés uns com os outros e a subir paredes! Alguns aldrabavam os jogos para ter o prémio e vi um ou outro a roubar um chupa-chupa. Não correu como esperava, mas foi para mim uma enorme aprendizagem e mostrou-me que a estrutura que a Cara criou funciona bem. Os alunos do Jesse, entre os 12 e os 16 anos foram mais calmos, pelo que jogamos descontraidamente às perguntas e respostas.

Após a bonita despedida da Cara e do Jesse, que além de presentes receberam uma enorme salva de palmas dos monges e tiraram imensas fotografias, fiquei na brincadeira com alguns dos mais novos. Uma coisa levou a outra e quando dei por mim, estava a organizar corridas de estafetas com três equipas de quatro monges cada. O resultado prático disto foi péssimo! Os monges completamente absorvidos pela brincadeira esqueceram-se dos deveres e tiveram de fugir quando surgiu um dos monges mais velhos muito zangado à procura deles! Fiquei com um enorme peso na consciência…

A segunda semana vai ser um tremendo desafio. Vou estar sozinho em sete aulas diárias, com duas a se sobreporem onde vou ter de colocar as duas classes numa só sala. Felizmente, cada classe tem no máximo oito alunos.

Semana 2

A segunda semana no mosteiro foi muito intensa, com as minhas sete aulas diárias a ocuparem grande parte do meu dia. Na prática, poderia reduzir as aulas juntando turmas, mas os monges estão organizados com base na sua prioridade de estudo, o budismo. O inglês é um extra.

No primeiro dia consegui dar aulas sem recorrer aos truques dos professores anteriores, ou seja, aulas sem jogos e sem doces. O plano definido com a coordenadora passava por prepará-los para um exame que vão fazer após a minha saída do mosteiro, pelo que havia que trabalhar a sério. Os monges responderam bem e aplicaram-se.

No segundo dia, a coisa já não correu tão bem e logo na primeira aula, os mais pequenos portaram-se muito mal, pedindo doces constantemente, ao ponto de me deixarem chateado! As aulas foram melhorando durante o dia, terminando de forma fantástica com as últimas duas aulas, as minhas preferidas.

Os monges têm o hábito de se ajudarem nas aulas. Quando um aluno mais fraco vai ao quadro, os mais fortes ajudam, chegando mesmo a dizer letra por letra como fazer o exercício. Falam em nepalês, mas eu percebo bem o que estão a fazer. Tentei fazê-los ver e insisti muito com isto, que, pensar é aprender. Tornei isto quase num slogan nas aulas, insistindo para que pensassem por si próprios explicando que nem sempre teriam alguém para os ajudar. Na minha penúltima turma, chamei um dos mais fracos ao quadro e insisti com os outros para ficarem calados. O monge fez o exercício todo errado, mas expliquei-lhe as regras gramaticais que aos poucos foi aplicando, corrigindo sozinho os erros. Quando acertou o exercício, todos os colegas aplaudiram! Ele voltou para o seu lugar de sorriso na cara e eu não poderia estar mais orgulhoso! Foi um dos melhores momentos da semana, muito poderoso, onde senti que estava mesmo a ajudar.

Assiti a uma Puja no templo mais pequeno e no final, um dos monges chamado Thupten A (também há o B e o C) foi-me falando sobre budismo, em particular sobre Karma: causa e efeito. De forma simplicista, os budistas acreditam que tudo é causa e efeito, ou seja, tudo o que fazemos tem uma consequência, nesta vida ou nas próximas. Eles acreditam em reencarnação e o karma desempenha um papel fundamental: o que nos acontece nesta vida é consequência de acções em vidas anteriores. O que fazemos nesta vida terá consequências na próxima. Já na biblioteca, recomendou-me um pequeno livro sobre o assunto que devorei e que me deixou surpreendido. Algumas coisas deixaram-me de pé atrás, mas no geral, não posso afirmar que não acredito em reencarnação. Sempre acreditei nesta vida e que há que aproveitá-la ao máximo, sendo a única certeza que tenho no assunto, mas uma coisa não invalida a outra. Em karma acredito: tudo o que fazemos volta para nós, bem ou mal. Já afirmei meio a brincar que, ou fiz algo de muito bom numa vida anterior ou farei algo de muito bom numa próxima vida para justificar esta fantástica vida que estou a viver agora…

A meio da semana, após ajudar o Thupten a ler o seu livro sobre budismo em inglês, regressei ao quarto e quando abri a porta, só vi fumo pela frente! Os voluntários anteriores deixaram-me um daqueles aquecedores de água para fazer café, que liguei antes de começar as aulas da tarde. Na altura não havia electricidade, pelo que esqueci-me de desligar o aparelho da tomada. Quando a electricidade voltou, o aparelho fez o seu trabalho, mas sendo um aparelho básico, não se desligou sozinho! Cheguei mesmo a tempo de retirar a ficha da corrente evitando um incêndio! Como castigo, passei o resto da semana com um péssimo cheiro a plástico queimado no quarto!

A minha rotina diária foi muito intensa, estando sempre muito ocupado. Além das aulas, tinha que preparar as aulas do dia seguinte, ajudar o Thupten a ler o seu livro pronunciando correctamente o inglês e ajudar os mais novos com os trabalhos de casa. Ainda consegui assistir a várias Pujas (incluindo a das cinco e meia da manhã no templo principal), vi vários debates e li dois pequenos livros sobre karma e meditação. Conviver e brincar com os monges também fez parte da rotina. Era dificil fazer mais.

Sendo lua cheia, não haveria aulas na sexta feira porque os monges passariam o dia a rezar, pelo que dicidi terminar o projecto mais cedo. No último dia dei aulas mais descontraídas, fazendo jogos, distribuindo doces e até mostrei fotos da minha família e amigos, falando sobre Portugal e a Madeira. A despedida foi disfarçadamente emocial para mim. Quando mandei sair os monges da minha última aula e apaguei o quadro, senti um arrepio no corpo. Creio que defini o tempo certo para a minha experiência no mosteiro porque mais uma semana e estaria demasiado afeiçoado aos monges. Os mais novos seguiam-me pelo mosteiro, chamavam-me “sir”, brincavam comigo. Os mais velhos cumprimentavam-me à passagem e alguns paravam para falar um pouco comigo. Tinha sempre companhia à mesa. Adorei a rotina no mosteiro e sair custou-me um pouco. Não me lembro onde fui buscar esta ideia de ensinar inglês num mosteiro budista, mas foi uma experiência extraordinária, muito mais de aprendizagem para mim que para eles. Jamais me esquecerei de adormecer a ouvir os pequenos monges a rezar perto do meu quarto… No final, deram-me um lenço, uma prenda e uma salva de palmas. Tive que me conter… e não foi fácil… Fui calado montanha abaixo de regresso a Catmandu com o condutor da VIN.

Grupo de voluntários
O meu quarto
O pequeno Tenzin
A despedida

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0 thoughts on “Mosteiro Rinchim Palri, Nepal

  • July 12, 2014 at 06:59
    Permalink

    Adorei este episódio. Mais uma vez, parabéns para teres a coragem de realizar os teus sonhos, até os mais inesperados. Acho que são pocos aqueles que têm este força de vontade. Espero que me reencarnarei num Paulo na minha próxima vida :-). Abraços da Suíça! Alain

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