Zâmbia

Aravessar o rio Zambezi não é fácil, havendo poucos locais para o fazer. Uma dessas travessias é na Zâmbia e essa é uma das principais razões pelas quais entramos neste país. Seguiram-se dois dias de muitas horas na estrada, dentro do camião. No primeiro dia, fizémos 11 horas que incluíram uma paragem para almoçar e outra na fronteira.

Em 2009, a localidade de Chirundo tornou-se numa “one stop border”. Quer isto dizer que em vez da habitual sequência saída de um país – terra de ninguém – entada noutro país, fazemos a saída e entrada num só local, diminuíndo o tempo de espera e engarrafamentos. É uma fronteira muito movimentada, com centenas de camiões a serem processados entre o Zimbabwe e a Zâmbia. O visto pode ser obtido na fronteira e custa 50 usd.

É um pouco chato estar o dia todo no camião. Tentamos manter-nos ocupados com alguma coisa, dormimos uma soneca, ouvimos música, etc. Eu tento ver a paisagem, sempre muito bonita e vou disparando umas fotos quando posso. Passamos por pequenas localidades, sempre interessantes de observar, afinal, estamos em Africa!

O John, nosso condutor faz um trabalho incrível ao aguentar tantas horas de condução, por vezes em condições horríveis como foi o caso após a passagem da fronteira, onde a estrada estava em obras e tivémos de fazer um desvio de vários kilómetros numa estrada de terra, num constante pára-arranca.

Depois de um segundo dia duro com mais 8 horas na estrada, chegamos ao nosso último acampamento na Zâmbia. Depois de ter dormido cerca de quatro horas na noite anterior porque a malta ficou no bar a tomar uns copos, estava convencido de que iria cedo para a cama. Puro engano: assim que entramos no acampamento, vi que havia outro camião com malta a fazer o mesmo tipo de viagem que nós, sendo a grande maioria miúdas… bem giras! Parece que escolheram a dedo e colocaram todas as miúdas giras no mesmo camião! Ainda comentei com o Victor que ainda bem que eu não ia naquele camião, afinal, estou aqui para ver Africa e ali teria demasiadas distracções… ele soltou uma gargalhada!

Depois do jantar a malta seguiu para o bar, mas infelizmente, parece que aquelas miúdas todas foram para a cama cedo, tal como tem acontecido em todo o lado. Ou esta vida de campismo não permite haver convívios até tarde, ou apanhamos sempre malta que vem de farras e precisa de descanso. Das duas, três! Com o pequeno almoço marcado para as seis da manhã, fui dormir pelas 23 horas.

A caminho do nosso destino, ainda dentro da Zâmbia, destaco um momento que mexeu comigo. Numa das paragens para o almoço, um grupo de crianças ficou perto de nós sempre a nos observar a uma distância segura. Eram uns seis a sete miúdos. No início, nem me apercebi que lá estavam, mas quando fui repetir a salada, reparei que estavam sempre a olhar para nós. Foi aqui que confesso, fiquei com um peso na consciência. Apesar de nos terem avisado para evitar dar o que quer seja, evitando contibuir para maus hábitos, fiquei triste por não lhes ter oferecido o meu almoço. Independemente dos vícios, em vez de ficar cheio, poderia ter dado alguma nutrição aos miúdos, que diga-se, não pediram nada e quando arrancamos, acenaram. Levei algum tempo a recuperar do meu egoísmo, mas como diz a Brooke, este sentimento de culpa ocidental faz parte da experiência. Se calhar ela tem razão. Seria pior se não o sentisse…

Quando a estrada desaparece…

 

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